Governo do Distrito Federal
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Casa da Ínsua

 Apresentação/Leitura paleográfica

 

 

O mapa está datado com o ano de 1769, o que nos traz certas dificuldades para determinar o período de qual governador foi elaborado. Isso porque o segundo governador de Mato Grosso, João Pedro da Câmara, termina seu mandato em janeiro de 1769 e, no mesmo mês, assume o terceiro governador, Luis Pinto de Sousa Coutinho. Como era comum o governador apresentar um relatório final de seu governo, muitas vezes acompanhado de mapas, poderíamos supor que o mapa teria sido produzido no final do governo de João Pedro da Câmara. Contudo, o fato de o presente mapa não ter o “cartucho” preenchido nos leva a supor que esse mapa foi elaborado no governo seguinte, o de Luis Pinto de Sousa Coutinho, pois seria muito improvável que um governador enviasse um mapa para Portugal com um “cartucho” vazio, espaço geralmente usado para colocar o título e fazer referência de quem e como o mapa foi produzido.

 

O presente mapa segue o padrão do de Ângelo dos Santos Cardoso, o primeiro mapa de Goiás. Para maiores informações sobre esse primeiro mapa, consultar o artigo “Primeiros mapas da Capitania de Goiás”, de Wilson Vieira Júnior, neste GUIA p. 32. Para uma melhor compreensão dos “Padrões Cartográficos” para os mapas de Goiás, consultar a parte final da INTRODUÇÃO. (Cf. neste GUIA p. 27)

 

Apesar de seguir o padrão de Ângelo dos Santos Cardoso, percebemos claramente que este mapa está voltado para a compreensão do território e das fronteiras da Capitania de Mato Grosso bastante estendidas para o Oeste, em direção ao território espanhol. De fato “após o descobrimento das jazidas de ouro nas adjacências do rio Cuiabá e o consequente início de uma colonização em senso estrito, nos primeiros momentos do Setecentos, desenvolveu-se no Conselho Ultramarino uma estratégia de ocupação do vale do rio Paraguai que tinha como pontos centrais os distritos mineradores de Cuiabá e do Mato Grosso, no vale do rio Guaporé, e que devia ser sustentada por um eixo de assentamentos e pousos consolidados que formaria uma faixa ao longo do curso dos principais rios que serviam de vias de penetração”.1 Como o mapa data de 1769, portanto, há apenas 21 anos da criação da Capitania de Mato Grosso, é de supor o interesse em representá-la cartograficamente. Por isso, o autor procurou representar elementos do interior daquela capitania, como a hidrografia, o relevo e a vegetação não presentes no mapa padrão, nem no segundo mapa de Goiás de Francisco Tosi Colombina.

 

Como entender que um mapa, originalmente usado para o território de Goiás tenha sido usado para representar a Capitania de Mato Grosso? Se compararmos o “mapa padrão” utilizado, é possível perceber que esse compreendia o território de Mato Grosso sem, entretanto, apresentar maiores representações da hidrografia, do relevo e demais informações cartográficas dessa capitania. Na ausência de um mapa específico para Mato Grosso, não é de se estranhar o aproveitamento do mapa goiano. Além disso, o Governador ao ser nomeado, geralmente procurava no Conselho Ultramarino informações a respeito do território que iria administrar. Ali era servido de documentos e mapas que estivessem à disposição. Portanto, é provável que algum governador, ou mesmo Luis Pinto de Sousa Coutinho, tenha levado para Mato Grosso uma cópia do mapa que seguia o “padrão” Ângelo dos Santos Cardoso e ia acrescentando elementos específicos da capitania.

 

O fato de este mapa se encontrar na Biblioteca da Casa da Ínsua, que foi a residência de Luis de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, governador que sucedeu a Luis Pinto de Sousa Coutinho no governo de Mato Grosso, nos oferece outra hipótese. Sabe-se que o governador Luis Pinto de Sousa Coutinho “entregou ao capitão-general empossado as memórias que lhe pareceram mais importantes da vida daquela capitania, documento que submetia também à aprovação régia, enviando cópia para Lisboa. O objetivo era instruir o novo governador sobre a administração daquele território […]. O extenso documento de 127 parágrafos faz o ponto da situação política, social, econômica, financeira, fiscal, judicial, militar, escolar etc., e aponta uma série de medidas para animar o comércio, fomentar a agricultura, entusiasmar o descobrimento de novas minas, promover casamentos e atrair novas famílias àquele distrito. Expõe igualmente os conhecimentos e as medidas que julga indispensáveis para se conseguir a melhor segurança e defesa dos povos. Recomenda, assim, o conhecimento topográfico do país […].”2

 

Portanto, é bastante provável que o mapa elaborado no primeiro ano do governo de Luis Pinto de Sousa Coutinho tenha sido repassado ao governador seguinte, a fim de instruir Luis de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres na administração da Capitania de Mato Grosso.

 

A administração de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres exigiu profundo apoio da cartografia. Além do fato de que seu governo coincidiu com os trabalhos demarcatórios do Tratado de Santo Ildefonso (1777) – o que lhe permitiu contar com técnicos em cartografia da corte portuguesa – seu longo governo à frente do Mato Grosso (1772-1789) “revelou uma administração inteligente da capitania, usando de cautelosa e prudente diplomacia em uma das mais difíceis questões da diplomacia externa pombalina – o limite entre as terras de Portugal e Espanha no Brasil – conseguiu mesmo estender as fronteiras para alem dos limites estabelecidos, […] tendo desenvolvido a agricultura e fomentado o comércio com as principais cidades do Brasil, como o Rio de Janeiro. Foi o grande promotor do povoamento das extensas terras do estado de Mato Grosso, fundando dezenas de povoações a que deu nomes como Ladário ou Ínsua, em homenagem às suas origens em Portugal. Mas na toponímia do estado ficaram também os nomes de “Estrela”, “Buçaco” ou “Lamego” que atribuiu às serras, mas sobretudo ficou a cidade de Albuquerque e o sumptuoso Forte do Príncipe da Beira, que assustou o Marques de Pombal pela sua grandiosidade e que no ano de 2009 fez parte das 25 maravilhas de Portugal no Mundo.”3

 

Curiosamente, este mapa traça as fronteiras de Mato Grosso com Goiás, diferentes da estabelecida pelo primeiro governador de Goiás, Conde dos Arcos, e representada no primeiro mapa de Goiás mandado fazer pelo seu Secretário, Ângelo dos Santos Cardoso em 1750 do qual, uma cópia foi dada a Francisco Tosi Colombina. A respeito disso, conferir  neste GUIA p. 48 e 148-150.

Sabe-se que:

 

[…] o primeiro levantamento geográfico daquela região [fronteira Oeste de Mato Grosso] aconteceria apenas algumas décadas depois, com os trabalhos demarcadores do Tratado de Madrid de 1750, o qual definiu precisamente o rio Paraguai como um dos limites entre as possessões ibéricas. As delimitações no terreno então efetuadas, constituíram a primeira intervenção sistemática e verdadeiramente científica das autoridades portuguesas e espanholas sobre o alto Paraguai. […] Na verdade, a ocupação portuguesa do vale do Paraguai apenas começa a ser pensada nos últimos anos do governo de Luís Pinto de Sousa Coutinho na Capitania de Mato Grosso. E isso verificou-se depois de contatos com o Morgado de Mateus, Governador de São Paulo, após este ter fundado em 1767, junto ao rio Iguatemi, a fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres e São Francisco de Paula, curiosamente em território que pertenceria à Capitania de Mato Grosso, com o objetivo de garantir a navegação do percurso das monções. Em 1770, Sousa Coutinho propôs a instalação de um outro estabelecimento no Fecho dos Morros, nas margens do rio Paraguai, que apoiando-se na fortaleza do Iguatemi garantiria a navegação do rio Paraguai. No entanto, ressaltava que a sua capitania não dispunha de homens para tal empreendimento, sugerindo que a sua fundação coubesse à Capitania de São Paulo. Na verdade, este era um projeto então praticamente inexeqüível.4

 

Portanto, a fronteira a Oeste, com os espanhóis, apesar da anulação do Tratado de Madrid em 1761 por meio do Tratado de El Pardo, estava relativamente estabelecida no Rio Paraguai, e de fato foi confirmada logo em seguida com o Tratado de Santo Ildefonso em 1777. A fronteira com Goiás, entretanto, será motivo de disputa por muitas décadas. Esse mapa, portanto, se reveste de relevância para a cartografia dos Sertões por indicar as pretensões da Capitania de Mato Grosso em sua fronteira com Goiás.

 

Leitura paleográfica

 

Explicaçaõ / [símbolo] Cidade. [símbolo] Villa. [símbolo] Fortaleza. [símbolo] Arrayal. [símbolo] Sitio: os pontinhos vermelhos denotaõ a derrota de Sanctos, S. Paulo e Ytu /até Villa Boa de Guayas, e desta até a Natividade: os pontinhos verdes demarcam a volta da Natividade a V.a Boa: o pontinho pretos de V.a Boa até o Cuyabá demarcaõ a derrota e communicaçaõ destas duas villas, e esta con / tinua a mostrar-se até o Mato-Grosso, quando se vai por terra, porq. quando se vai em canoa, se desce o rio Cuyabá codos dos porrudos, se sobe o Paraguay, e o Jaurú ate onde atravessa o ca / minho de terra, q. se segue deixando as canoas: os pontinhos pretos desde Ararytaguaba ate o Cuyaba pelo R. Tiaté, Pardo, Camapoaá, Cuchiim, Jaquari, Paraguay, Cheené, Pur / rudos, e Cuyabá demarcaõ o caminho das canoas, q. servem de communicaçaõ. com a costa do mar de Sanctos, e R. de Janeiro, e o povuado de S. Paulo: os pontinhos vermelhos da / villa de Cuyabá, q. dessendo pelas margens do m.o R., e dos Porrudos, sobem o Paraguay, e Sapitúba denotaõ. o caminho, q. fes Joaõ de Souza de Azevedo quando varou por terra até o / R. Somidouro, pelo qual dessendo, e pelos rios Tapajos e Amazonas foi ao Gram Pará donde voltando sobio pelo dito Amazonas, e Madeira té o Mato Grosso: os pontinhos ama / rellos da villa do Cuyabá, q. sobem pela margem do d.o R. e atravessaõ por terra até dar no R. Preto e nos dos Arinos, denotaõ a viage de canoas q novamente se descobrio, e q., fas com / municavel a dita villa com a cidade do Gram Pará: os pontinhos pretos no R. Tocantins, q. principiaõ onde saõ dous senais de sitios q. começaõ as povuaçois, ou rocas do / Gram Para, denotaõ a viagem, q. a gente da Natividade embarcando-se em canoas no Pontal, e chegados em onze dias até as ditas rocas, e destas até, os canais, ou cmmo / chamaõ Guarupes em dous dias, e por elles tres q., tudo fazem dezaceis dias ate o Gram Para; porem a subida, se reputa empossivel, e a descida so se fas em tempo das cheyas; mais facil se / suppem a communicaçaõ desta villa com a cidade do Gram Pará embarcando-se dous dias de viagem abaixo no rio Vermelho, q. emtra no Rio Grande do caminho do Cuyaba, q. / com o nome de Araguaya emtra no Tocantins: o q. veste o amarelo demarca a capitania de Guayas: nos caminhos, q. vem de S. Paulo a esta villa, e desta vao a Natividade, e voltaõ, / nao se emcomtraõ matos de consideraçaõ mais, q. o de Mogi na comarca de S. Paulo, e o mato grosso da Meia Ponte nesta capitania de Guayas, q. vaõ com destinto.s nos arvoredos; as terras q. se emcomtraõ. / estaõ demarcadas: os sitios do caminho de S. Paulo a V.a de Guayas naõ estaõ marcados, / mas se apontaõ só os q. se achaõ neste mappa em grande distancia do alistado: tudo o q. sircula o vermelho demarca a cappitania do Mato Grosso.

  1. Santos
  2. S. Vicente
  3. Fortaleza da Barra de Santos
  4. Fortaleza da Bertioga
  5. Conceição
  6. Iguape
  7. Cananéa
  8. S. Paulo
  9. Parnahiba
  10. Ytú
  11. Ararytaguaba
  12. Sorocaba
  13. Jundiai
  14. Mogi
  15. Arraial dos Bororos governado pelo Coronel Antonio Pires de Campos
  16. Santa Cruz
  17. Santa Luzia
  18. Meya Ponte
  19. Ouro Fino
  20. Ferreiro
  21. Villa Boa
  22. [Barra?]
  23. Piloens
  24. Crixá
  25. [Guarinos?]
  26. Pilar ou Papoã
  27. Agua quente
  28. Trayras
  29. S. Jozé
  30. S. Rita
  31. Moquem
  32. Chapada de S. Gonçalo
  33. Morinhos ou Amaro Leyte
  34. Corriola
  35. Carlos Marinho ou S. Felix
  36. Chapada de S. Felix
  37. Caval Cante
  38. Paranã ou Itiquira
  39. Arrayas
  40. Barra da Palma ou Terras Novas
  41. Duro
  42. Natividade
  43. Pontal
  44. Descoberto do Carmo

Referências:

1 – NOGUEIRA, Carlo Eugênio. A conquista do Brasil Central: fronteiras e frentes pioneiras no século XIX. Scripta Nova. Revista Electronica de Geografia Y Ciencias Sociales. Vol. XVI, núm. 418 (9), 1 de noviembro de 2012.

2 – GARCIA, João Carlos (Coord.). A mais dilatada vista do mundo – Inventário da coleção cartográfica da Casa da Ínsua. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2002.

3 – Monografia da Casa da Ínsua. Disponível em:

<http://www.casadainsua.pt/content-monografia.aspx?pid=2&cid=38&id=52>. Acesso em: 27 jun. 2014.

4 – FERREIRA, Mário Clemente. A disputa ibérica pelo domínio do rio Paraguai na segunda metade do século XVIII e a sua representação cartográfica. Iº Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica. Paraty, 2001. Disponível em:

<https://www.ufmg.br/rededemuseus/crch/simposio/FERREIRA_MARIO_C.pdf>. Acesso em: 1 jul. 2014.

Fonte – Casa da Ínsua – Portugal

Medidas – 74 cm × 53 cm

Data – 1759

Localização – Mapas de Itinerários A14

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